Saiba que você é muito especial pra mim.


Poemas de Casimiro de Abreu.

NO TÚMULO DUM MENINO

Um anjo dorme aqui; na aurora apenas,

Disse adeus ao brilhas das açucenas

Sem ter da vida alevantado o veú

- Rosa tocada do cruel granizo -

Cedo finou-se e no infantil sorriso

Passou do berço pra brincar no céu!

ASSIM!

Viste o lírio da campina?

Lá s’inclina

E murcho no hastil pendeu!

- Viste o lírio da campina?

Pois, divina,

Como o lírio assim sou eu!

Nunca ouviste a voz da flauta,

A dor da nauta

Suspirando no alto mar?

- Nunca ouviste a voz da flauta?

Como o nauta

É tão triste o meu cantar!

Não viste a rola sem ninho

No caminho

Gemendo, se a noite vem?

- Não viste a rola sem ninho?

Pois, anjinho,

Assim eu gemo, também!

Não viste a barca perdida,

Sacudida

Nas asas dalgum tufão?

- Não viste a barca fendida?

Pois querida

Assim vai meu coração!

NA REDE

Nas horas ardentes do pino do dia

Aos bosques corri;

E qual linda imagem dos castos amôres,

Dormindo e sonhando cercada de flôres

Nos bosques a vi!

Dormia deitada na rêde de penas

- O céu por dossel,

De leve embalada no quieto balanço

Qual nauta cismando num lago bem manso

Num leve batel!

Dormia e sonhava – no rosto serena

Qual um Serafim;

Os cílios pendidos nos olhos tão belos,

E a brisa brincando nos soltos cabelos

De fino cetim!

Dormia e sonhava – formosa embebida

No doce sonhar,

E doce e sereno num mágico anseio

Debaixo das roupas batia-lhe o seio

No seu palpitar!

Dormia e sonhava – a boca entreaberta,

O lábio a sorrir;

No peito cruzados os braços dormentes,

Compridos e lisos quais brancas serpentes

No colo a dormir!

Dormia e sonhava – no sonho de amores

Chamava por mim,

E a voz suspirosa nos lábios morria

Tão terna e tão meiga qual vaga harmonia

De algum bandolim!

Dormia e sonhava – de manso cheguei-me

Sem leve rumor;

Pendi-me tremendo e qual fraco vagido

Qual sopro da brisa, baixinho ao ouvido

Falei-lhe de amor!

Ao hálito ardente do peito palpita…

Mas sem despertar;

E como nas ânsias dum sonho que é lindo,

A virgem na rede corando e sorrindo…

Beijo-me – a sonhar!

POESIA E AMOR

A tarde que expira,

A flor que suspira,

O canto da lira,

Da lua o clarão;

Dos mares na raia

A luz que desmaia,

E as ondas na praia

Lambendo-lhe o chão;

Da noite a harmonia

Melhor que a do dia,

E a viva ardentia

Das águas do mar;

A virgem incauta,

As vozes da flauta,

E o canto do nauta

Chorando o seu lar;

Os trêmulos lumes,

Da fonte os queixumes,

E os meigos perfumes

Que solta o vergel;

As noites brilhantes,

E os coces instantes

Dos noivos amantes

Na lua de mel;

Do templo nas naves

As notas suaves,

E o trino das aves

Saudando o arrebol;

As tardes estivas,

E as rosas lascivas

Erguendo-se altivas

Aos raios do sol;

A gota de orvalho

Tremendo no galho

Do velho carvalho,

Nas folhas do ingá

O bater do seio,

Dos bosques no meio

O doce gorjeio

Dalgum sabiá;

A órfã que chora,

A flor que se cora

Aos raios da aurora,

No albor da manhã;

Os sonhos eternos,

Os gozos mais ternos,

Os beijos maternos

E as vozes de irmã;

O sino da torre

Carpinho quem morre,

E o rio que corre

Banhando o chorão;

O triste que vela

Cantando à donzela

A trova singela

Do seu coração;

A luz da alvorada,

E a nuvem dourada

Qual berço de fada

Num céu todo azul;

No lago e nos brejos

Os férvidos beijos

E os loucos bafejos

Das brisas do sul;

Toda essa ternura

Que a rica natura

Soletra e murmura

Nos hálitos seus,

Da terra os encantos,

Das noites os prantos,

São hinos, são cantos

Que sobem a Deus!

Os trêmulos lumes,

Da veiga os perfumes,

Da fonte os queixumes,

Dos prados a flor,

Do mar a ardentia,

Da noite a harmonia,

Tudo isso é – poesia!

Tudo isso é – amor!

NFÂNCIA

Ó anjo da loura trança,

que esperança

nos traz a brisa do sul!

- Correm brisas das montanhas…

Vê se apanhas

A borboleta de azul!…

Ó anjo da loura trança,

És criança,

A vida começa a rir.

- Vive e folga descansada.

Descuidada

Das tristezas do provir.

Ó anjo da loura trança,

Não descansa

A primavera inda em flor;

Por isso aproveito a aurora

Pois agora

Tudo é riso e tudo amor.

Ó anjo da loura trança,

A dor lança

Em nossa alma agro descer.

- Que não encontres na vida

Flor querida,

Senão contínuo prazer.

Ó anjo da loura trança,

A onda é mansa

O céu é lindo dossel;

E sobre o mar tão dormente,

Docemente

Deixa correr teu batel.

Ó anjo da loura trança,

Que esperança

Nos traz a brisa do sul!

- Correm brisas das montanhas…

Vê se apanhas

A borboleta de azul!…

CENA ÍNTIMA

Como estás hoje zangada

E como olhas despeitada

Só pra mim!

- Ora diz-me: esses queixumes,

Esses injustos ciúmes

No têm fim?

Que pequei eu bem conheço,

Mas castigo não mereço

Por pecar;

Pois tu queres chamar crime

Render-me à chama sublime

Dum olhar!

Porventura te esqueceste

Quando de amor me perdeste

Num sorrir?

Agora em cólera imensa

Já queres dar a sentença

Sem me ouvir!

E depois, se eu te repito

Que nesse instante maldito

- sem querer -

Arrastado por magia

Mil torrentes de poesia

Fui beber!

Eram uns olhos escuros

Muito belos, muito puros,

Como os teus!

Uns olhos assim tão lindos

Mostrando gozos infindos,

Só dos céus!

Quando os vi fulgindo tanto

Senti no peito um encanto

Que não sei!

Juro falar-te a verdade…

Foi decerto – sem vontade -

Que eu pequei!

Mas hoje, minha querida,

Eu dera até esta vida

Pra poupar

Essas lágrimas queixosas,

Que as tuas faces mimosas

Vêm molhar!

Sabe ainda ser clemente,

Perdoa um erro inocente,

Minha flor!

Seja grande embora o crime

O perdão sempre é sublime

Meu amor!

Mas se queres com maldade

Castigar quem – sem vontade

Só pecou;

Olha, linda, eu não me queixo;

A teus pés cair me deixo…

Aqui ‘ stou!

Mas se me deste, formosa,

De amor na taça mimosa

Doce mel;

Ai! Deixa que peça agora

Esses extremos d’outrora

O infiel:

Das brisas do sul;

Prende-me… nesses teus braços

Em doces, longos abraços

Com paixão;

Ordena com gesto altivo…

Que te beije este cativo

Essa mão!

Mata-me sim… de ventura,

Com mil beijos de ternura

Sem ter dó

Que eu prometo, anjo querido,

Não desprender um gemido,

Nem um só!

CANTO DE AMOR

I

Eu vi-a e minha alma antes de vê-la

Sonhara-a linda como agora a vi;

Nos puros olhos e na face bela,

Dos meus sonhos a virgem conheci.

Era a mesma expressão, o mesmo rosto,

Os mesmos olhos só nadando em luz,

E uns doces longes, como dum desgosto,

Toldando a fronte que de amor seduz!

E seu talhe era o mesmo, esbelto, airoso

Como a palmeira que se ergue ao ar,

Como a tulipa ao pôr-do-sol- saudoso,

Mole vergando à viração do mar.

Dera a mesma visão que eu dantes via,

Quando a minha alma transbordava em fé;

E nesta eu creio como na outra eu cria,

Porque é a mesma visão, bem sei que é!

No silêncio da noite a virgem vinha

Soltas as tranças junto a mim dormir;

E era bela, meu Deus, assim sozinha

No seu sono d’infante inda a sorrir!…

II

Vi-a e não vi-a! Foi num só segundo

Tal como a brisa ao perpassar na flor,

Mas nesse instante resumi um mundo

De sonhos de ouro e de encanto amor.

O seu olhar não me cobriu d’afago,

E minha imagem nem sequer guardou,

Qual se reflete sobre a flor dum lago

A branca nuvem que no céu passou.

A sua vista espairecendo vaga,

Quase indolente, não me viu, ai, não!

Mas eu que sinto tão profunda a chaga

Ainda a vejo como a vi então.

Que rosto d’anjo, qual estátua antiga

No altar erguida, já caído o véu!

Que olhar de fogo, que a paixão instiga!

Que níveo colo prometendo um céu.

Vi-a e amei-a, que a minha alma ardente

Em longos sonhos s sonhara assim;

O ideal sublime, que eu criei na mente,

Que em vão buscava e que encontrei por fim.

III

Pra ti, formosa, o meu sonhar de louco

E o Dom fatal, que desde o berço é mea;

Mas se os cantos da lira achares pouco,

Pede-me a vida, porque tudo é teu.

Se queres culto – como um crente adoro,

Se preito queres – eu te caio aos pés,

Se rires – rio, se chorares – choro,

E bebo o pranto que banhar-te a tez.

Dá-me em teus lábios um sorrir fagueiro,

E desses olhos um volver, um só;

E verás que meu estro, hoje rasteiro,

Cantando amores s’erguerá do pó!

Vem reclinar-te, como a flor pendida,

Sobre este peito cuja voz calei:

Pede-me um beijo… e tu terás, querida,

Toda a paixão que para ti guardei.

Do morto peito vem turbar a calma,

Virgem, terás o que ninguém te dá;

Em delírios d’amor dou-te a minha alma,

Na terra, a vida, a eternidade – lá!

IV

Se tu, oh linda, em chama igual te abrasas,

Oh! Não me tardes, não tardes, – vem!

Da fantasia nas douradas asas

Nós viveremos noutro mundo – além!

De belos sonhos nosso amor povôo,

Vida bebendo nos olhares teus;

E como a garça que levanta o vôo,

Minha alma em hinos falará com Deus!

Juntas, unidas num estreito abraço,

As nossas almas uma só serão;

E a fronte enferma sobre o teu regaço

Criará poemas d’imortal paixão!

Oh! Vem, formosa, meu amor é santo,

É grande e belo como é grande o mar.

E doce e triste como d’harpa um canto

Na corda extrema que já vai quebrar!

Oh! Vem depressa, minha vida foge…

Sou como o lírio que já murcho cai!

Ampara o lírio que inda é tempo hoje!

Orvalha o lírio que morrendo vai!…

QUANDO?!…

Não era belo, Maria,

Aquele tempo de amores,

Quando o mundo nos sorria,

Quando a terra era só flores

Da vida na primavera?

- Era!

Não tinha o prado mais rosas,

O sabiá mais gorjeios,

O céu mais nuvens formosas,

E mais puros devaneios,

A tua alma inocentinha?

- Tinha!

E como achavas, Maria,

Aqueles doces instantes

De poética harmonia

Em que as brisas doudejantes

Folgavam nos teus cabelos?

- Belos!

Como tremias oh! Vida,

Se em mim os olhos fitavas!

Como eras linda, querida,

Quando d’amor suspiravas

Naquela encantada aurora!

- Ora!

E diz-me: não te recordas

- Debaixo do cajueiro -

Lá da lagoa nas bordas

Aquele beijo primeiro?

Ia o dia já findando …

- Quando?!…

A VOZ DO RIO

Nosso sol é de fogo, o campo é verde,
O mar é manso, nosso céu azul!
- Ai! Por que deixas este pátrio ninho
pelas friezas dos vergéis do sul?

Lá nessa terra onde o Guaíba chora
Não são as noites, como aqui, formosas,
E as duras asas do Pampeiro iroso
Quebra as tulipas e desfolha as rosas.

A lua é doce, nosso amr tranqüilo,
Mais leve a brisa, nosso céu azul!…
- Tupá! Quem troca pelo pátrio ninho
As ventanias dos vergéis do sul?

Lá novos campos outros campos ligam
E a vista fraca na extensão se perde!
E tu sozinha viverás no exílio.
- Graça perdida nesse mar que é verde!

Nossas campinas como doces noivas
Vivem c’os montes sob o céu azul!
- Há vida e amores neste pátrio ninho
Mais rico e belo que os vergéis do sul!

Essas palmeiras não têm tantos leques,
O sol dos pampas mareou seu brilho,
Nem cresce o tronco que susteve um dia
O berço lindo em que dormiu teu filho!

Nossas florestas sacudindo os galhos
Tocam c’os braços este céu azul!…
- Se tudo é grande neste pátrio ninho
Por que deixá-lo pra viver no sul?!

Embora digas: – essa terra fria
Merece amores, é irmã da minha -
Quem dar-te pode este calor do ninho,
A luz suave que o teu berço tinha?!

Eu – Guanabara – no meu longo espelho
Reflito as nuvens deste céu azul;
- Ó minha filha! Acalentei-te o sono,
Por que me deixas pra viver no sul?!

Lá, quando a terra s’embuçar nas sombras
E o sol medroso s’esconder nas águas,
Teu pensamento, como o sol que morre,
Há de cismado mergulhar-se em mágoas!

Mas se forçoso t’é deixar a pátria
Pelas friezas do vergéis do sul,
Ó minha filha! Não t’esqueças nunca
Destas montanhas, deste céu azul.

Tupá bondoso te derrame graças,
Doce ventura te bafeje e siga,
E nos meus braços – ao voltar do exílio -
Saudando o berço que teu lábio diga:

“Volvo contente para o pátrio ninho,
“Deixei sorrindo esses vergéis do sul;
“Tinha saudades deste sol de fogo…
“Não deixo mais este meu céu azul!…”

AMOR E MEDO

I

Quando eu te fujo e me desvio cauto
Da luz de fogo que te cerca, oh! Bela,
Contigo dizes, suspirando amores:
” – Meu Deus! Que gelo, que frieza aquela!”

Como te enganas! Meu amor é chama
Que se alimenta no voraz segredo,
E se te fujo é que te adoro louco…
És bela – eu moço; tens amor – eu medo!…

Tenho medo de mim, de ti, de tudo,
Da luz, da sombra, do silêncio ou vozes,
Das folhas secas, do chorar das fontes,
Das horas longas a correr velozes.

O véu da noite me atormenta em dores
A luz da aurora me intumesce os seios.
E ao vento fresco do cair das tardes
Eu me estremeço de cruéis receios.

É que esse vento que na várzea – ao longe,
Do colmo o fumo caprichoso ondeia,
Soprando um dia tornaria incêndio
A chama viva que teu riso ateia!

Ai! Se abrasado crepitasse o cedro
Cedendo ao raio que a tormenta envia.
Diz: – que seria da plantinha humilde
Que à sombra dele tão feliz crescia?

A labareda que se enrosca ao tronco
Torrara a planta qual queimara o galho;
E a pobre nunca reviver pudera
Chovesse embora paternal orvalho!

II

Ai! Se eu te visse no valor da sesta,
A mão tremente no calor das tuas,
Amarrotado o teu vestido branco.
Soltos cabelos nas espáduas nuas!…

Ai se eu te visse, Madalena pura,
Sobre o veludo reclinada a meio,
Olhos cerrados na volúpia doce,
Os braços frouxos – palpitante o seio!…

Ai se eu te visse em languidez sublime,
Na face as rosas virginais do pejo,
Trêmula a fala a protestar baixinho…
Vermelha a boca, soluçando um beijo!…

Diz: – que seria da pureza d’anjo,
Das vestes alvas, do candor das asas?
- Tu te queimaras, a pisar descalça,
- Criança louca, – sobre um chão de brasas!

No fogo vivo eu me abrasara inteiro!
Ébrio e sedento na fugaz vertigem
Vil, machucara com meu dedo impuro
As pobres flores da grinalda virgem!

Vampiro infame, eu sorveria em beijos
Toda a inocência que teu lábio encerra,
E tu serias no lascivo abraço
Anjo enlodado nos pauis da terra.

Depois… desperta no febril delírio,
- Olhos pisados – como um vão lamento,
Tu perguntaras: – qu’é da minha c’roa?…
Eu te diria: – desfolhou-a o vento!…

———

Oh! Não me chamas coração de gelo!
Bem vês: traí-me no fatal segredo.
Se de ti fujo é que te adoro e muito,
És bela – eu moço; tens amor, eu – medo!…



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